quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

tromba d´água



por vezes, sobro,
como tornado de múltiplos vórtices numa atmosfera instável.
e vou entendendo que viver é isso mesmo.
é sobrar um pouquinho aqui e faltar outro tanto ali.



Foto: Alex Dram

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

psiu...

Dou-te a rosa
Gesto simples sem hora
Por um sorriso de agora

Foto: Tanya

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

guerra

De vestido vermelho, ela caminha.

Não há sombra qualquer que a ampare no tempo e a faça apagar as memórias incautas daquela manhã de janeiro. Ela é ela.

E ela é aquela que chora por lágrimas e loucuras irrealizáveis, por amores, violências, presenças. Sabe-se, eu sei. Nunca houve espaço para a delicadeza e a delicadeza precisa encontrar seu lugar, ou morre-se.

De horror.

Pintura: Chloe Early

domingo, 29 de janeiro de 2012

a arte e o tempo


Many can relate to a sense of disembodied franticness that expands across the landscape of our daily lives. We are busy people. We are plugged in to phones and computers, and constantly on the move. An elusive horizon—the purpose of our quicksilver existence—has been erased in favor of a go-to emotional state that is the result of a privatization of time. We are frantic workers even when we work against the very conditions that produce our franticness.

Inevitably, the fast pace of consumerism is accompanied by the tantalizing promise of slow timeAllen Ginsberg once complained of a heart attack en route to his weekly meditation.

Just as the arts were reinvented in the age of the camera, so too must they be in the age of accelerated time. If the internet and the touch screen represent the apparatuses of our age, then the material and the prolonged have become a niche for the discursive and formal role of the arts. Much like a spa, the arts play host to a malnourished subject eager to experience something nostalgically other. Slow time and tangible bodies become so rare experientially that their aesthetic value finds a home in the cul-de-sac of scarcity that is art.

Trecho do artigo: “CONTRACTIONS OF TIME: ON SOCIAL PRACTICE FROM A TEMPORAL PERSPECTIVE” BY NATO THOMPSON IN E-FLUX’S JOURNAL, ISSUE #20, NOVEMBER 2011

Foto: arquivo pessoal. Espetáculo Danaides (2011) – Cia. Basirah Dança Contemporânea

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

hora do recreio

A rosa branca de minha mãe já perdeu a alvura, mas ainda a mantenho dentro de um caderninho velho da época de escola. Cheiro de um ontem tão vivo quanto estranho, tempo que me absorve sem pedir licença. Estou longe do agora. Lembro dos passos, das vozes.

Encontro as costas largas do professor de biologia. Ele é baixo e esconde uma cicatriz curta entre o bigode denso, negro. Gosto dele. Daquelas mãos pequenas contrastando com os braços fortes. Durante nossas saídas guiadas ao Jardim Botânico, ponho-me sempre perto da sua fala rouca. Admiro os gestos, a eloquência didática, o sorriso. Ziguezagueio silenciosamente entre as pernas dos colegas de turma para estar ali, insignificante, ao seu lado.

Voltamos. A sala cheia. Conversas e brincadeiras típicas das crianças. Todas elas, menos eu, trocam bilhetinhos. Minha companhia não é necessária, concluo resignada à vida dos grafites e dos livros por ler. Sento, como usualmente, em uma das cadeiras da frente. A primeira fila é conveniente. De costas para todos aqueles gigantes, assisto às aulas. Muda. Presto atenção nos sinônimos e sínteses, copio cada palavra, cada ilustração, e tiro boas notas. A causa? Orgulho e segredo meu.

Toca a sirene. A hora do recreio chega como tragédia anunciada. O momento dos desfiles de barbies, do pique-esconde, e do queimado me atormenta – vinte longos minutos em que o silêncio não é a regra. Escondida na sala de aula, finjo a plenitude com o nariz enfurnado numa página qualquer de livro. Permaneço ali, olhando fixamente para o papel, sem apreender coisa alguma, sem olhar para os lados, sem encarar a minha própria vergonha. Estou só, mais uma vez. A sirene estridente me faz pular da cadeira. Caem as canetas e os livros. O estojo, comprado nos Estados Unidos, parte-se em três. Nem me importo. Sorrio aliviada. Menos um recreio.

Às sextas-feiras, mamãe dava dinheiro para o lanche. Dia feliz. Vou altiva até a cantina e compro, orgulhosa, o enorme queijo quente no pão árabe – sanduíche mais caro da lanchonete. Volto bem devagar até a sala. Saboreio cada mordida e me sinto redimida por alguns eternos minutos. Posso circular sem ser observada. Pertenço ao pão, o pão me pertence, pertenço. Sexta não tem aula de biologia. Pena.


Foto: google images

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012